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[Conto]• A Árvore, de H.P. Lovecraft (Português) | De Olho Na Estante

E aí pessoal! Trago mais um conto na íntegra, em português do mestre H.P. Lovecraft. A Árvore, publicado originalmente em 1921 é um dos populares contos do autor.


A Árvore

Numa encosta verdejante do Monte Menelau, na Arcádia, ergue-se  um bosque de oliveiras ao lado das ruínas de uma vila. Próximo a ele fica um túmulo que já foi decorado com as mais sublimes esculturas, mas agora se encontra muito maltratado, assim como a casa. Numa extremidade do túmulo, com suas curiosas raízes deslocando os blocos de mármore pentélico manchados pelo tempo, cresce uma oliveira anormalmente grande, com a forma estranhamente repelente de um homem grotesco ou de um corpo humano corrompido pela morte, que os moradores do local temem cruzar por ele à noite, quando a lua brilha fracamente por entre os ramos retorcidos. O Monte Menelau é freqüentado pelo temido Pã, cercado por muitos e estranhos companheiros, e os aldeões simplórios acreditam que a árvore deve ter algum odioso parentesco com esse fantástico séquito de Pã. Mas um velho apicultor que mora no casebre vizinho contou-me uma história diferente.

Há muitos anos, quando a vila na encosta da colina era nova  eresplendente, era habitada pelos escultores Kalos e Musides. Da Lídia a Neapolis, exaltava-se a beleza de seu trabalho e ninguém ousava dizer que um excedia ao outro em maestria, O Hermes de Kalos estava num nicho de mármore em Corinto, e a Palas de Musides encimava uma coluna em Atenas, perto do Partenon. Todos reverenciavam Kalos e Musides, e a todos maravilhava que nenhuma sombra de inveja artística abrandasse o calor de sua fraterna amizade.

Mas embora Kalos e Musides vivessem em inquebrantável harmonia, sua natureza não era idêntica. Enquanto Musides se divertia, à noite, nas folias urbanas de Tegea, Kalos permanecia em casa, esquivando-se da vista de seus escravos nos frescos recessos do olival. Ali meditava sobre as imagens que povoavam sua mente, e ali idealizava as formas de beleza que posteriormente imortalizaria no respirante mármore. Alguns desocupados diziam que Kalos conversava com os espíritos do bosque, e que suas estátuas eram tão-somente as imagens dos faunos e dríades que ali encontrava — pois não apoiava seu trabalho em nenhum modelo vivo.

Era tal a fama de Kalos e Musides que ninguém se espantou quando o Tirano de Siracusa enviou mensageiros para lhes falar sobre a rica estátua de Tyche que planejara para sua cidade. A estátua deveria ser muito grande e de magnífica realização artística, pois pretendia-se que fosse alvo da admiração das nações e destino dos viajantes. Enaltecido além do inimaginável seria aquele cuja obra fosse escolhida, e, por essa honra, Kalos e Musides foram convidados a competir. Sua fraterna amizade era bastante conhecida e o astucioso Tirano supôs que cada um deles, em vez de esconder seu trabalho do outro, dar-lhe-ia ajuda e conselho, obtendo, por obra dessa solidariedade, duas imagens de beleza inaudita, a mais bela das quais eclipsaria até mesmo o sonho dos poetas.

Os escultores receberam com alegria a oferta do Tirano, e nos dias que se seguiram, seus escravos escutaram o incessante golpear dos cinzéis. Kalos e Musides não ocultaram seus trabalhos um do outro, mas somente eles os viam. Nenhum outro olhar, exceto os seus, avistava as duas figuras divinas libertadas por seus habilidosos golpes dos toscos blocos que as aprisionavam desde o princípio do mundo.

À noite, como de costume, Musides procurava os salões festivos de Tegea enquanto Kalos perambulava, sozinho, pelo olival. Com o passar do tempo, porém, as pessoas foram observando uma crescente tristeza no antes efusivo Musides. Era estranho, diziam entre si, que a depressão pudesse tomar conta de alguém com uma oportunidade tão grande de conquistar a mais elevada recompensa da arte. Muitos meses se passaram, mas o rosto entristecido de Musides nada revelava da aguda expectativa que a situação deveria suscitar.

Então, certo dia, Musides falou sobre a doença de Kalos, e assim ninguém mais se espantou com sua tristeza, pois o apego dos dois escultores era sabidamente profundo e sagrado. Depois disso muitos foram visitar Kalos e realmente notaram a palidez de sua face, mas havia nele uma alegre serenidade que tornava seu olhar mais mágico que o de Musides — que estava claramente transtornado pela ansiedade e que afastava todos o escravos em sua ânsia de alimentar e cuidar pessoalmente do amigo. Ocultas por trás de pesados reposteiros ficavam as duas figuras inacabadas de Tyche, pouco mexidas ultimamente pelo doente e por seu fiel atendente.

A medida que Kalos ia ficando inexplicavelmente mais e mais fraco apesar dos esforços de médicos perplexos e do amigo íntimo, ele pedia, com freqüência, que o carregassem para o bosque que tanto amava. Ali, pedia para ser deixado a sós, como que desejoso de conversar com coisas invisíveis. Musides sempre atendia a seus pedidos, embora seus olhos se enchessem de lágrimas à idéia de que Kalos se importava mais com os faunos e dríades do que com ele. Finalmente aproximou-se o fim, e Kalos discorreu sobre coisas do além. Musides, chorando, prometeu-lhe um sepulcro mais gracioso que o túmulo de Mausoléu, mas Kalos implorou-lhe para não falar mais de glórias de mármore. Um desejo apenas ocupava a mente do moribundo: que brotos de certas oliveiras do bosque fossem enterrados ao lado de seu lugar de repouso — próximas a sua cabeça. E certa noite, sentado, sozinho, na escuridão do olival, Kalos morreu.

Era de uma beleza indizível o sepulcro de mármore que o abatido Musides esculpiu para seu amado companheiro. Ninguém, exceto o próprio Kalos, poderia ter criado aqueles baixosrelevos revelando todos os esplendores do Elísio. Musides também não se esqueceu de enterrar, perto da cabeça de Kalos, os brotos de oliveira do bosque.

Quando a violenta dor inicial de Musides cedeu lugar à resignação, ele passou a trabalhar diligentemente em sua figura de Tyche. Toda a honra agora era sua já que o Tirano de Siracusa não queria que o trabalho fosse feito por nenhum outro exceto ele ou Kalos. O trabalho acabou servindo de desafogo para sua dor e ele labutava cada dia mais arduamente, abandonando os folguedos a que antes se entregava. Entrementes, suas noites eram passadas ao lado do túmulo do amigo onde um jovem pé de oliveira havia brotado perto da cabeça do falecido. Tão rápido era o crescimento dessa árvore, e tão estranha sua forma que todos que a viam, exclamavam surpresos; e Musides parecia sentir-se simultaneamente fascinado e repelido por ela.

Três anos após a morte de Kalos, Musides enviou um mensageiro ao Tirano e murmurouse na agora de Tegea que a poderosa estátua havia sido concluída. A essa altura, a árvore ao lado do túmulo atingira proporções descomunais, superando todas as outras árvores de sua espécie e estendendo um galho singularmente pesado por cima da vila onde Musides trabalhava. Acorriam tantos visitantes para ver a prodigiosa árvore quanto para admirar a arte do escultor, de forma que Musides raramente estava só. Mas ele não se importava com essa multidão de visitantes; na verdade, parecia temer a solidão agora que seu absorvente trabalho fora concluído. O soturnovento da montanha, suspirando através do olival e da árvore – sepulcro, tinha uma misteriosa maneira de formar sons vagamente articulados.

O céu estava escuro na noite em que os emissários do Tirano chegaram a Tegea. Era definitivamente sabido que tinham vindo para levar a grande estátua de Tyche e trazer honra eterna para Musides, por isso foram calorosamente recebidos pelos próxenos. No correr da noite, uma violenta ventania se abateu sobre a crista do Menelau e os enviados da distante iracusa se alegraram de e star abrigados na cidade. Eles falaram de seu ilustre Tirano e do esplendor de sua capital, e exultaram com a magnificência da estátua que Musides esculpira para ele. Então os homens de Tegea falaram sobre a bondade de Musides, sobre seu enorme pesar por seu amigo, e sobre como nem mesmo os próximos lauréis da arte iriam consolá-lo da ausência de Kalos, que poderia ter usado esses lauréis em seu lugar. Falaram ainda da árvore que crescia ao lado do sepulcro, próxima à cabeça de Kalos. O vento uivou ainda mais assustadoramente e tanto os siracusanos como os árcades suplicaram a Eolo.

Ao raiar do dia, na manhã seguinte, os próxenos guiaram os enviados do Tirano encosta acima até a morada do escultor, mas a ventania noturna produzira estranhos feitos. Gritos de escravos elevavam-se num cenário de desolação, e já não se erguiam no meio do olival as cintilantes colunatas daquela vasta mansão onde Musides sonhara e trabalhara. Solitários e abalados pranteavam os humildes pátios e paredes inferiores, pois sobre o suntuoso peristilo principal havia desabado o pesado galho pendente da estranha árvore, reduzindo o imponente poema em mármore, de singular perfeição, a um amontoado de ruínas disformes. Os estrangeiros e os tegeanos estacaram consternados, correndo o olhar dos escombros para a grande e sinistra árvore cujo aspecto era tão fantasticamente humano e cujas raízes se infiltravam tão estranhamente no sepulcro entalhado de Kalos. E seu medo e assombro aumentaram quando, vasculhando a mansão derrubada à procura do doce Musides e da maravilhosa imagem entalhada de Tyche, nenhum traço deles pôde ser encontrado. Em meio à ruína havia apenas o caos, e os representantes das duas cidades saíram desapontados; os siracusanos sem a estátua para levar para casa, os tegeanos sem um artista para laurear. Os siracusanos, porém, obtiveram, depois de algum tempo, urna esplêndida estátua em Atenas, e os tegeanos se consolaram erigindo,  na agora,  um templo de mármore comemorando os dons, as virtudes e a fraternal piedade de Musides.

Mas o bosque de oliveiras ali permaneceu, bem como a árvore que cresce do túmulo de

Kalos, e o velho apicultor contou-me que os ramos, cortados às vezes pelo vento norturno, sussurram uns para os outros, repetindo vezes sem conta: “Oida! Oida! — Eu sei! Eu sei!”

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Autor:

Um leitor compulsivo, viciado em livros de terror, ficção e fantasia, além de fã maluco de Game of Thrones. Esse blog surgiu de um desejo antigo de compartilhar sempre que possível, um pedacinho desse incrível universo literário que nos cerca, então... seja bem vindo!

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