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[Resenha #12mesesdepoe] • Outubro: Berenice | De Olho Na Estante

Os lábios lívidos entreabriam-se numa espécie de sorriso e, em meio à penumbra circundante, novamente resplandeceram diante de mim, com realidade por demais palpável, os dentes alvos, cintilantes, espectrais de Berenice.

E aí pessoal! Hoje iremos falar do conto do mês de Outubro, Berenice, indicado para o nosso desafio #12mesesdepoe. Extremamente violento e recheado por um horror gótico, Berenice aborda questões da psique humana muito relacionadas à obsessão, nos assombrando a cada página e nos instigando a tentar entender os limites do real e do imaginário.


O conto que teve algumas partes censuradas, muito devido ao horror que causou aos leitores, é considerado um dos mais assombrosos do autor. Trabalhando com questões duras, cruéis e de grande impacto, principalmente para a época em que foi escrito, o conto nos cativa tanto pela belíssima forma com a qual foi escrito, quanto por seu conteúdo brutal, que margeia os limites da obsessão humana.

Um dos poucos contos em que o autor dá nome ao seu narrador, Berenice possui marcas profundas de sua proximidade com a nossa realidade: a toda hora nos deparamos com trechos tão realistas que quase se configuram em imagens à nossa frente.

O conto é narrado por um homem chamado Egeu, que realiza uma série de sombrias comparações acerca da vida, uma série de ambiguidades em relação ao bem e o mal, à alegria e a tristeza, felicidade e angústia.

Descobrimos então que esse narrador é um homem muito rico e herdeiro de uma gigantesca mansão; e é nessa exuberante propriedade que guarda as mais profundas memórias de sua vida; fora lá também que nascera, e lá que sua mãe morrera. Porém, uma lembrança o marca profundamente:

(…) uma lembrança que não se deixa elidir; uma recordação qual uma sombra, vaga, variável, indefinida, inconstante; e, qual uma sombra, também, na impossibilidade de dela me livrar enquanto o sol de minha razão continuar a existir.

Ele narra que morava então com sua prima Berenice, crescendo desde a infância juntos. Uma diferença contudo havia entre os dois. Enquanto que Egeu era um menino muito melancólico, com  a saúde debilitada e voltado sempre à meditação, Berenice era graciosa, ágil, transportava alegria e energia. Percebe-se ainda uma certa obsessão dele com Berenice: momentos em que ele a descreve com uma Náiade (ninfa, ser mitológico) e a caracteriza como deslumbrante.

Porém, quando menos se esperava, uma desgraça se abateu sobre Berenice, uma doença fatal, que a transformou completamente, a destruindo.

A doença — uma doença fatal — se abateu como um simum sobre seu corpo, e, diante de meus próprios olhos(…) Ai de mim! o destruidor veio e partiu, e a vítima — onde estava ela? Eu não a conhecia — ou não mais a conhecia como Berenice.

Essa doença se assemelhava a epilepsia, com períodos de transe que se assemelhavam à morte. O próprio Egeu sofreu com essas bruscas transformações, desenvolvendo também uma espécie de irritabilidade mórbida que acabaram por modificar seu psicológico, gerando alguns devaneios em determinados períodos.

Com o avançar da estória percebemos também que Egeu nunca a amara, não com o coração, e sim com a mente; essa paixão era mais voltada para quem ela era, voltada para sua alma; como o próprio narrador nos conta, ela não era uma criatura para ser admirada e sim analisada. Cada vez mais a presença de Berenice lhe causava estremecimento, e em um momento de lembranças, ele lhe pede em casamento.

Próximo ao período de núpcias Egeu estava no gabinete interno de sua biblioteca, quando de repente, Berenice surge em sua frente: uma figura transformada, de causar calafrios a qualquer um, com traços quase que fantasmagóricos. Porém, o que mais o choca são seus dentes, excessivamente estreitos e brancos. Aquela imagem terrível que não sai de sua cabeça.

Num sorriso de peculiar expressão os dentes da transformada Berenice revelaram-se vagarosamente à minha visão. Quisera Deus que jamais os houvesse contemplado ou que, uma vez o tendo feito, houvera eu morrido!

A partir deste momento o conto modifica-se drasticamente, e cenas violentas, recheadas de um horror realmente macabro tomam conta da estória. Dois parágrafos do conto foram retirados  por serem muito violentos e terem aterrorizado os leitores, pois imaginem alguém escrever tais coisas hediondas e macabras naquela época (1835), imaginem o impacto que houve.

Berenice é um de meus contos favoritos, sobretudo pelo fato de que ela trás uma apresentação clara dos fatos, que choca o leitor por sua dureza e simplicidade.

Se quiser acessar o conto na íntegra sem censura basta clicar aqui: Berenice, de Edgar Allan Poe

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Autor:

Um leitor compulsivo, viciado em livros de terror, ficção e fantasia, além de fã maluco de Game of Thrones. Esse blog surgiu de um desejo antigo de compartilhar sempre que possível, um pedacinho desse incrível universo literário que nos cerca, então... seja bem vindo!

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