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[Resenha] – Drácula, de Bram Stoker – Edição Comentada | De Olho Na Estante

Com a direita, agarrava-a pela nuca, forçando seu rosto para baixo sobre o peito dele. A camisola branca estava suja de sangue, e um fio escorria pelo peito nu do Conde, exposto por suas roupas abertas. A posição dos dois lembrava terrivelmente uma criança forçando um gatinho a enfiar o focinho no pires de leite, para obrigá-lo a beber.

E aí pessoal, hoje iremos falar de um dos mais célebres clássicos da literatura, Drácula, de Bram Stoker, cujo personagem, o macabro e temido Conde Drácula, mestre de uma legião crescente de mortos vivos, se consagra a mais de um século como o maior ícone do imaginário do terror, se tornando um marco fundador de um gênero, além de inspiração para um universo de artistas através de gerações.


Estruturado em forma epistolar, ou seja, contado através de uma série de diários, cartas, registros de bordo, entre outros, o romance retrata a disputa entre bem e o mal, através da luta de Jonathan e Mina Harker, o médico holandês Van Helsing e seus amigos em uma tentativa de caça e destruição do demoníaco Conde Drácula.

O livro começa então com o diário de Jonathan Harker, um advogado de Exeter, na Inglaterra que, enviado por seu empregador, o Senhor Peter Hawkins, viaja para a Transilvânia a fim de tratar de negócios imobiliários com um misterioso nobre estrangeiro chamado Conde Drácula, que vive em uma afastado castelo e deseja se mudar para Carfax, em Londres.

Chegando em Bistritz, cidade localizada ao norte da Transilvânia, Jonathan se encaminha, por recomendação do próprio Conde Drácula, para o Golden Krone Hotel, a fim de descansar e comer um pouco, para assim, partir a seu encontro no dia seguinte. Chegando ao hotel, ele é recebido por uma senhora idosa, que logo lhe entrega uma carta de boas-vindas do Conde, que explicava como ele encontraria a carruagem que o estaria esperando para levá-lo ao castelo.

No dia seguinte, Jonathan acaba descobrindo que o senhorio havia recebido uma carta do Conde com a orientação de que lhe garantisse o melhor lugar na hospedaria, e acaba perguntando como ele havia recebido tal carta; ele porém, finge não entender o que havia sido perguntado e olha para a esposa, a velha senhora que entregou a carta do Conde, e acaba explicando posteriormente, que eles somente receberam uma quantia em dinheiro dentro da carta. Jonathan então pergunta se eles conheciam o Conde e se poderiam explicar algo mais sobre o misterioso e afastado nobre, mas ao fazer isso, tanto o homem quanto a esposa fazem o sinal da cruz e se recusam a continuar a conversa. No entanto, como já se aproximava da hora de sua partida, ele nem teve tempo de perguntar mais nada a ninguém.

Mas o que mais o angustiou e o deixou desconfiado foi que, a velha senhora foi até o seu quarto, e o questionou sobre a necessidade de sua partida. Jonathan então explicou que haviam negócios importantes a ser tratados e que não poderiam ser interrompidos ou atrasados, ela porém, argumentou dizendo que era véspera do dia de São Jorge, data em que à meia noite, todas as coisas malignas do mundo estarão à solta. Contudo, vendo que suas preces ao jovem advogado não surtiram efeito, ela implorou-lhe de joelhos para que não fosse. Jonathan então tentou levantar a pobre senhora, que às lagrimas tirou um crucifixo do pescoço e o entregou, dizendo: “— Faça isso pela sua mãe.” e saiu do quarto.

Já de noite, continuada a viajem após partir da estalagem, Jonathan encontra a carruagem que o esperava para lhe levar até o Conde Drácula. Ao realizar a transferência de uma carruagem para a outra, ele percebe, quando a luz do lampião ilumina a boca do condutor que o levaria ao Conde, que seus lábios eram muito vermelhos e seus dentes pontiagudos e brancos demais.

E como se não bastassem todos os estranhos eventos ocorridos anteriormente, bem tarde da noite, quase chegando ao castelo do Conde, Jonathan percebe que a carruagem estava rodeada por um bando de lobos. Eis então que o cocheiro os espanta com um simples gesto com os braços.

Chegado finalmente no castelo do Conde, o próprio Drácula o recebe, e muito gentilmente realiza todos os preparativos para o alojamento do advogado. Após descansar e comer, ele começa a conversar com o Conde, que lhe tira algumas dúvidas, garantindo assim o total entendimento e conforto de seu “hóspede”.

Entretanto, diversas coisas começam a deixar Jonathan confuso e assustado, como por exemplo, que o Conde nunca comia em sua presença, dizendo sempre que já havia realizado sua refeição, além de que, em um episódio enquanto se barbeava em frente a um espelho, não vira em nenhum momento o reflexo do Conde, enquanto este estava atrás dele; com o susto acabara então se cortando e, ao ver o sangue, os olhos do Conde adquiriram um brilho infernal e sua face se transformara completamente.

Bram Stoker, diferentemente de muitos escritores que já li, consegue criar uma atmosfera paralisante e inquietante, que te deixa apreensivo para saber o que acontece em seguida (isso durante todo o livro, até seu último parágrafo), fazendo com que o leitor mergulhe nesse macabro mundo, entendendo e sentindo na pele, tudo o que acontece com com os personagens.

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Uma cena extremamente mórbida e soturna, que dá início a percepção de Jonathan de que há ali alguma coisa errada, é a de quando ele abre as janelas de seu quarto e ao olhar na direção da janela do quarto de Drácula, que ficava abaixo do seu, ele percebe que o Conde sai e começa a se arrastar de ponta cabeça pelas pedras da parede do castelo. Deste modo, ele começa a associar que não passava de um prisioneiro de Drácula; infelizmente, isso se dá tarde demais, a tempo de que já mais nada poderia fazer.

Drácula então aprisiona Jonathan no castelo e parte para Carfax, a fim de dar continuidade a seu maligno plano. Todavia, Jonathan consegue escapar da fortaleza do Conde e foge para casa. É então, após a chegada de Jonathan, que se inicia a frenética busca por mais informações a respeito do conde, e que ele, sua esposa Mina e seu grupo de amigos, composto pelo psiquiatra John Seward, o lorde inglês, Arthur Holmwood e o playboy texano Quincey Morris, liderados pelo médico Van Helsing tentam a todo custo destruir o Conde Drácula.

Algo muito interessante abordado durante todo o romance e que dota as narrativas de uma divinatoriedade sem igual, é a força das superstições no imaginário popular; força essa os personagem tiveram que se agarrar para lutar contra o demoníaco Vampiro. Bram Stoker foi genial ao trabalhar o conflito entre o pensamento científico, caracterizado como racional e as superstições, para com a existência do próprio Vampiro, embate que constitui a essência do romance. Como o próprio Van Helsing argumenta:

Um ano atrás, quem de nós aceitaria essa possibilidade, em pleno século XIX, científico, cético e prático? … Pois nesta era esclarecida em que os homens não acreditam nem no que veem, a dúvida dos homens mais sábios seria a maior força do vampiro.

E por fim, o que dizer desta incrível edição comentada da Zahar! Com o texto integral de Bram Stoker, traduzido de modo impecável, capa dura e um acabamento de luxo, além de mais de 200 notas, que proporcionam uma inserção muito maior na estória, esta é a melhor edição aqui no Brasil do Clássico Drácula, que com absoluta certeza se tornou um dos meus livros preferidos de toda a vida!

Nota: 10/10

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Autor:

Um leitor compulsivo, viciado em livros de terror, ficção e fantasia, além de fã maluco de Game of Thrones. Esse blog surgiu de um desejo antigo de compartilhar sempre que possível, um pedacinho desse incrível universo literário que nos cerca, então... seja bem vindo!

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