Publicado em Diversos

[Resenha #12mesesdepoe] – Maio: Revelação Mesmeriana | De Olho Na Estante

P. – Que perguntarei então?

V. – Deve começar pelo começo.

P. – O começo? Mas onde é o começo?

V. – O começo, como sabe, é Deus. (Isto foi dito numa voz baixa, flutuante, e com todos os sinais da mais profunda veneração.)

P. – Que é Deus, então?

V. – (Hesitando durante alguns minutos.) Não posso.

E aí pessoal, sei que faz um tempinho que não posto nada aqui no blog, mas estive meio enrolado com questões de projetos de conclusão de curso e acabei não conseguindo postar nada aqui; porém voltando com tudo, vamos ao quinto conto do nosso querido desafio #12mesesdepoe, chamado Revelação Mesmeriana. Este conto, narrado e estruturado em um profundo e brilhante diálogo, levanta diversas questões acerca de temáticas referentes à vida, à morte, Deus e a própria metafísica; nos levando de modo gradativo à esse tão extenso universo que pode ser ou se tornar a mente humana.


Logo no início do conto, nos deparamos com um narrador sem nome, que se utiliza de uma prática denominada Mesmerismo no tratamento de um paciente com tuberculose, o Sr. Vankirk. O Mesmerismo nada mais é do que uma doutrina criada pelo médico alemão Franz Anton Mesmer, que consiste na crença de que a mente dos animais possui uma energia magnética que, se manipulada corretamente serviria para o tratamento e cura de doenças.

Certo dia, nosso narrador-personagem é chamado pelo Sr. Vankirk, dizendo que sentia fortes dores no peito e que respirava com muita dificuldade. Chegando lá, ele inicia o processo de Mesmerismo, colocando o paciente em hipnose, uma espécie de transe que, como ele mesmo apresenta é uma “quase morte”.

Conforme vai havendo sua melhora, o narrador se propõe a continuar a hipnose, iniciando uma conversa com o senhor Vankirk, que poderá então falar coisas que não falaria ou não poderia falar caso estivesse desperto, ou seja, fora desse transe.

É a partir desse momento que mergulhamos em um intrigante e profundo diálogo entre o narrador e seu paciente, diálogo este que nos possibilita vislumbrar e entender um pouco do caos que é a mente humana, portal poderoso capaz de alcançar outros níveis do entendimento. Poe aqui brilhantemente desenvolve um diálogo direto, que constrói e solidifica gradativamente uma série de complexas questões envolvendo as definições e explicações acerca do que é a vida e a morte, a existência e o infinito, a matéria e a substância.

Poe trabalha de modo bem detalhado as questões e as classificações, como por exemplo, quando ele explora e metaforiza a ideia de uma vida rudimentar e uma vida derradeira, em que a vida rudimentar se assemelharia a nossa vida cotidiana, enquanto seres orgânicos e limitados, porém em constante processo de aprendizado e adaptação, e a vida derradeira, final,  que seria inorgânica e de sensações ilimitadas. Isso é simplesmente incrível! Poe aqui demonstra (mais uma vez) estar muito a frente de seu tempo, pensando e problematizando questões altamente complexas em um nível absurdo de coesão.

Ao longo de basicamente todo o conto, viajamos através desses pensamentos, buscando o caminho que de modo gradativo nos foi traçado, para que possamos entender de fato um pedaço do universo que nos cerca.

Uma questão muito interessante trabalhada aqui é a das definições e conceitos, estes que damos e caracterizamos tão facilmente, mas que quando analisamos mais profundamente percebemos estar não cheia de erros, mas sim de lacunas incompletas, nunca antes respondidas, talvez por dificuldade ou por impossibilidade.


Análise com SPOILERS:

Durante todo o diálogo entre o narrador e o paciente, algumas questões são abordadas e posteriormente respondidas de formas um tanto intrigantes. Podemos perceber isso quando lhe é perguntado o que é Deus, a vida ou a morte. Me parece que graças à este processo de hipnose, ao passo que o paciente foi “mesmerizado”, ele chegou mais próximo da morte, sendo capaz de alcançar um nível de entendimento muito maior do que uma pessoa rudimentar, como o próprio texto explica. Deste modo ele se tornaria ou se assemelharia a este estado derradeiro, possuinte de um conhecimento ilimitado, capaz de entender e sentir tudo que coexiste no cosmos.

Porém, já para o final do conto, após explicar mais detalhadamente essa questão do entendimento, que diferencia a vida rudimentar da derradeira, o narrador percebe que a voz do paciente se torna mais fraca e que sua expressão se altera bruscamente, com isso, o retira imediatamente do transe. No entanto, para sua imensa perplexidade, percebe que o paciente jazia bem a sua frente morto, já com o corpo rígido, como no próprio conto nos é apresentado:

Ao pronunciar o magnetizado estas últimas palavras em voz fraca, notei-lhe na fisionomia singular expressão que me alarmou um tanto e induziu-me a despertá-lo imediatamente. Logo que fiz isto, com um brilhante sorriso a iluminar todas as suas feições caiu para trás no travesseiro e expirou. Notei que, menos de um minuto depois seu cadáver tinha toda a rígida imobilidade da pedra. Sua fronte estava fria como gelo. Assim, geralmente, só se mostraria depois de longa pressão da mão de Azrael. Ter-se-ia, realmente, o magnetizado, na última parte de sua dissertação, dirigido a mim lá do fundo das regiões das sombras?

Note-se que o rigor mortis é um processo de rigidez corpórea que acomete o cadáver em torno de 7 horas após sua morte; o que nos leva a pensar e imaginar que o Sr. Vankir já deveria ter morrido em meio à conversa com o narrador, só sendo mantido ali conversando graças ao processo de Mesmerismo. Acontecimento que nos mostra a possibilidade de, mesmo estando ali fisicamente em presença do mesmerizador, o mesmerizado acabou realizando esta verdadeira passagem para a vida derradeira, mantendo este processo de magnetização como uma ponte entre a vida infinita e a rudimentar.

Enfim, mais uma vez Poe nos presenteia com uma incrível estória, digna de cinco estrelas, capaz de instigar qualquer um a tentar entender esta genial e complexa linha de raciocínio; e como já disse outras vezes, nos fazendo pensar por horas e discutir seus múltiplos significados, eternamente…

Para ler o conto clique aqui: Revelação Mesmeriana, de Edgar Allan Poe

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Autor:

Apaixonado por livros de Terror, Ficção e Fantasia, e muito fã de Game of Thrones #DominGOT! Esse blog surgiu de um desejo antigo de compartilhar sempre que possível, um pedacinho desse incrível universo literário que nos cerca, então... seja bem-vindo!! 📖📚

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